Arquivo do dia: 2 de janeiro de 2011

O milagrário de Agualusa

Há um (grande) tempo, quando falei de Mia Couto, disse que voltaria depois para falar de José Eduardo Agualusa e As mulheres do meu pai, romance publicado aqui no Brasil em 2007 pela editora Língua Geral que, aliás, tem editado livros, inclusive do próprio Agualusa, belíssimos, de grande riqueza estética. A demora deve-se exclusivamente ao fato do meu pai ter se encantado pelo título do romance acima, ter querido ler e nunca mais ter devolvido o meu livro. Nesse intervalo de tempo, fui lendo outras coisas desse   escritor angolano, nascido mais precisamente em Huambo, dono de mais de uma dezena de obras e em plena produção literária.

Agualusa, como já disse faz parte dessa proeminente literatura africana de língua portuguesa  junto com outros angolanos como Ondjaki, Pepetela, moçambicanos como Mia Couto, caboverdianos como Corsino Fortes, e o que mais salta aos olhos, pelo menos nos quatro livros que li (Estação das chuvas, Barroco Tropical, Milagrário Pessoal e As mulheres do meu pai) é algo que agrada demais, que exige extrema competência para se fazer bem feito: a mistura de realidade e ficção. O real trabalho nos romances, assim como a poeta do post abaixo, Ana Cristina Cesar. É evidente que os romances africanos de literatura portuguesa têm como plano de fundo o processo histórico da recente independência e que os autores evidenciam isso de uma maneira ou outra, mas José Eduardo vai além mesclando a cultura contemporânea com fatos atuais, históricos, personagens reais representadas através dos pincéis da ficção.

Barroco tropical é por si só uma obra de genialidade, uma mulher que cai misteriosamente do céu, uma cantora de fado depressiva, um homem que teve o rosto queimado e agora é conhecido por Mickey, e outras tantas personagens que têm as suas vidas cruzadas em algum ponto do romance. Algumas delas, inclusive, reais, que são reinventadas pela caneta do autor. Nessa mistura de real e ficção, Agualusa vai, às vezes com muita ironia e sarcasmo, manifestando os problemas da Angola atual, a herança de Portugal, a questão das línguas. Mostra-nos um país para além dos clichês que todos sabemos.

De todas as literaturas africanas de Língua Portuguesa, a Angolana é que mais me tem chamado a atenção,  em grande parte devido à obra do J.E. Agualusa e sua mescla de ficção e realidade, pela narrativa ágil, surpreendente e, em muitas vezes, de tirar o fôlego, é o tipo de livro que te captura pelos detalhes, pelo estranhamento inicial que se desata no final. Enfim, Agualusa é, na minha opinião de botequim, um dos nomes mais ricos e prósperos de Angola.

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