Arquivo do mês: janeiro 2010

“Viver é um descuido prosseguido.”

hoje é um bom dia para falar desse livro que é poesia em prosa. que transcende tudo: Grandes Sertões: Veredas.

“Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?”

como a vida se desfolha em nós e nós nos desfolhamos pela vida? em quais momentos nos achamos e nos perdemos? em quais esquinhas reconhecemos o outro em nós mesmos? e quando é que nos apercebemos de que não somos mais nós, somos completamente o outro?

o sertão que há no mundo. e nós que existimos nos mais diversos tipos de sertões que há pelo mundo, não falo apenas do sertão físico. falo principalmente daquele emocional. árido de sentimento e cheio de verdades absolutas que, por vezes, roubam todo o encantamento.

e o sertão e o homem se reiventam na simplicidade de uma linguagem reinventada. aquela linguagem que se reinventa em busca de expressar sentimentos até então desconhecidos, essa estranheza de nós. essa maior estranheza de quem somos nesse mundo vasto e por vezes mais árido do que o nosso paladar aguenta.

e as querências e dúvidas do humano personificam-se nas questões de Riobaldo:

“o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança do meio do fel do desespero. Ao que este mundo é muito misturado.”

e quem não precisa de certezas nessa vida? nesse mundo misturado que nos é enfiado goela abaixo? tão macio seria pisar num chão que fosse completamente feito de tijolos bem cimentados, sem qualquer lombada ou declive ou buracos em sua extensão. mas não, o mundo é misturado. e nós, grande parte de nós, seguimos não misturados ao mundo.

e Riobaldo é traído por aquilo que Bakthin chamava de istina, verdades universais. uma pessoa vestida de homem, só pode mesmo ser um homem. e aquele amor todo ficou só neblina até nunca mais.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Simplesmente amor

‘Simplesmente amor”, vejam só vocês que incrível, é um filme de amor, mas amor em todas as suas formas, ou em quase todas. O filme não narra apenas uma história de amor, muito pelo contrário. Várias são as personagens e várias são as histórias, de maneira que se torna quase impossível não se identificar com, pelo menos, uma história contada. E, não só no papel de quem é traído, de quem é rejeitado, mas também como aquele que rejeita ou trai.

A palavra-chave de “Simplesmente amor” é  delicadeza. Delicadeza ao contar as histórias e na trilha sonora que é quase 50% do filme na minha opinião.A minha história preferida é a do Mark e ninguém vai ficar admirado se eu, manteiga derretida que sou, disser que essa é a mais bonita e que me faz chorar. Outras também me emocionam, mas nenhuma como essa.

Embora seja ambientado no natal é um filme para o ano todo. É para ser assistido em várias ocasiões, vejam: com sua namorada (namorado, ou par romântico de sua preferência) naquele friozinho de julho quando você não quer pôr um dedo fora de casa, com seu melhor amigo, com a sua mãe, com os irmão, com a família toda, só com o cachorro, e até acompanhado de um pote de Häagen-Dazs (o sabor fica ao seu critério) para aqueles dias em que se perdeu a fé no amor e no mundo.

Se você já assistiu esse filme sabe bem do que estou falando, se ainda não assistiu eu sugiro que se dê esse presente hoje. Ah, vale lembrar que naquelas bacias das Americanas ele pode ser encontrado  por módicos R$12,99. : )

Nome original: Love Actually.
Ano/País:2003,Inglaterra.
Diretor: Richard Curtis.
Duração: 134 min.
Roteiro: Richard Curtis.
Premiações: Ganhou o BAFTA de Melhor Ator Coadjuvante (Bill Nighy) e foi ainda indicado em outras 2 categorias: Melhor Filme Britânico e Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Thompson). Além deduas indicações ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme – Comédia/Musical e Melhor Roteiro e uma indicação ao European Film Awards de Melhor Ator – Júri Popular Hugh Grant).

1 comentário

Arquivado em Cinema

Mia Couto e “Antes de nascer o mundo”

Confesso que antes do Mia Couto sempre torci o nariz para as literaturas africanas, por pura ignorância e falta de vontade de ler qualquer coisa. Mesmo porque tudo me parecia muito distante e eu não sabia quem ou o quê ler. Isso tudo até  esse moçambicano fofo aparecer. O primeiro livro que li foi Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra, e o susto, e a grata surpresa: aquilo era bom, era muito bom, era um jeito diferente de escrever, era poético e me lembrava muito Guimarães Rosa (depois vim a saber que o autor foi muito influenciado pelo Rosa). Esse livro me marcou tanto que eu precisava parar de ler para anotar umas passagens.

Antes de nascer o mundo é o mais novo romance do Mia Couto, lançado aqui no Brasil em junho do ano passado. O livro narra a história de um homem e a sua pequena família composta apenas de homens. É um livro que junta passdo e presente, e se foca muito em cada uma das personagens, todas têm um capítulo especial que acaba evidênciando a condição das mesmas. Aquela família vive no passado ao mesmo tempo que Silvestre Vitalício é assombrado pelo próprio passado. Estão todos presos a uma terra que não lhes pertence e a qual chamam de Jesusalém.

Os conflitos das personagens são realmente interessantes, as lembranças de cada um e a prípria  falta de lembranças, como o caso de Mwanito, filho mais novo de Vitalício, não se lembrar das feições de uma mulher. O ponto forte do livro, sem dúvida alguma, como sempre, é a poeticidade da escrita de Mia, a beleza dos diálogos e das descrições. Destaco aqui um trecho que gosto muito:

“No meu caso, não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim. Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca”.

Por linhas assim tão bonitas é que digo que é uma leitura que vale a pena. Assim como também vale muito a pena nos aventurarmos por essas paragens da literatura africana. Para conhecer um pouco mais desse novo romance aexiste essa entrevista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=MLq29FFC-2o que ele deu no lançamento do livro aqui em São Paulo.  Mais para frente falarei de um outro africano: José Eduardo Angalusa e seu livro As mulheres do meu pai, cuja beleza e a poeticidade também nos fazem ficar boquiabertos.

Então, amigo  leitor, crie coragem e vá até à livraria, biblioteca ou site mais próximo, garanta o seu exemplar de Antes de nascer o mundo e depois venha nos contar o que achou. : )

Nome: Antes de nascer o mundo
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2009
n° de páginas: 277
Preço estimado: R$ 42,00

3 Comentários

Arquivado em Literatura

Your eyes are full of hate, forty-one. That’s good. Hate keeps a man alive. It gives him strength.

o homem que o ódio ajudou a construir.foi o filme que eu mais assisti na vida, sem dúvida. nas minhas noites de insônia na época de moradia da unicamp, era o filme que ia parar no vídeo e quase sempre em companhia de uma pessoa que, à época, significava muito para mim.

Judah Ben-Hur é um príncipe judeu, contemporâneo a Jesus Cristo e suas histórias se desenrolam em paralelo, uma das coisas que eu mais gosto do filme é isso. e a história de Judah é a história da formação de um homem e em sua transformação diante das presepadas da vida, porque se somos frutos de nossas escolhas, somos também frutos das presepadas que essa vida nos apronta. e Ben-Hur perde um amigo e ganha um ódio mortal, ao ver toda sua família esfacelada por uma sucessão de acasos e pela decisão de seu amigo Messala.

o filme também fala de fé. fé em princípios e objetivos. ao ser mandado para o exílio, ele nunca pensa em desistir ou dar-se por vencido, de alguma forma ele voltaria e se vingaria do ex-amigo. encasquetou isso na cabeça e foi, sabendo que de algum modo voltaria e voltou.

o filme é essencial para quem gosta de História, para quem gosta de ver imagens da Roma Antiga e também para quem gosta de uma boa adaptação cinematográfica, já que o roteiro foi adaptado do romance homônimo de Lew Wallace. e não custa dar uma olhada no primeiro ganhador de 11 oscares, né? (os dois outros foram Titanic, de James Cameron e O Senhor dos Anéis, o Retorno do Rei, de Peter Jackson)

então seja um forte e encare o filme e sua longa duração. valerá a pena.

Nome original: Ben-Hur.
Ano/País:1959, EUA.
Diretor:William Wyller.
Duração: 212 min.
Roteiro: Karl Tunberg.
Premiações: 11 oscares, 1 BAFTA, mais outros 16 prêmios e 5 nominações.

Deixe um comentário

Arquivado em Cinema

Mary Louise Streep

apaixonei-me por ela ao assistir Kramer vs. Kramer, isso quando eu tinha 10 anos e como meu coração sempre foi volúvel, foi na mesma época em que me apaixonei por Jodie Foster (mas dela eu certamente falarei depois) e já faz 19 anos que acompanho a carreira dessa Diva, dessa deusa que o mundo conhece como Meryl Streep.

nomeada quinze vezes ao Oscar, levou a estatueta em somente duas ocasiões o que, ao meu ver, é uma baita injustiça, merecia ganhar em pelo menos outras quatro vezes com entre dois amores, as pontes de Madison, dúvida e adaptação.

extremamente dedicada aos personagens que abraça, aprendeu a tocar violino para filmar música do coração. esse perfeccionismo reflete em suas atuações de maneira extremamente positiva, difícil linkar as personagens de Meryl,pois diferem muito entre si e a atriz lhes confere tanta peculiaridade que por vezes é complicado reconhecer a pessoa que há por trás da personagem.

é o tipo de atriz referência. a fernanda montenegro gringa. e eu recomendo a todos que vejam toda sua filmografia, e em especial o Julie & Julia; onde Meryl dá vida à Julia Child, outra pessoa fantástica e diva em outras paragens.

2 Comentários

Arquivado em Cinema

Amor em cinco tempos

E se você pudesse iniciar o seu próximo relacionamento pelo fim? É o que propõe, de alguma maneira, o filme de François Ozon. São cinco pequenas histórias do mesmo casal que vão do divórcio, passando por uma crise conjugal, o nascimento do filho, o casamento e, por fim, o primeiro encontro. Tudo isso envolvido por uma bela trilha sonora italiana. A história começa pesada, em um tribunal e, logo após o divórcio, a primeira transa do casal que é mais um estupro consentido do que qualquer outra coisa. É bastante perceptível a fragilidade das duas personages: Marion (Valeria Bruni Tedeschi) e Gilles (Stéphane Freiss). E essa fragilidade vai ganhando outras formas à medida que a história avança: o peso da primeira narrativa dará lugar à leveza da última.

Toda a beleza do filme está mesmo na construção às avessas do relacionamento e nas mudanças físicas e psicológicas que as duas personagens apresentam. Marion que começa como uma mulher frágil, vai se tornando mulher independente ao passar das cenas; Gilles, de homem sisudo e mal humorado, transforma-se em alguém de agradável convivência. O que, talvez, poderia ser explicado pela idéia de que quando nos apaixonamos tendemos a ser um pouco mais altruístas do que o costumeiro para, evidentemente, agradar o outro. Altruísmo esse que vai se desconstruindo enquanto a relação se constrói.

A grande divisão entre leveza e peso que julgo existir nesse filme se dá com o nascimento do filho do casal, exatamente a cena do meio. Marion avisa o marido a respeito do nascimento do filho e Gilles simplesmente não vai encontrá-la na maternidade. Ao contrário, meio perdido, o homem vai almoçar, fuma e depois de um longo tempo é que vai ao encontro da mulher e do filho. O nascimento da criança, de certa maneira, evidencia o rompimento da relação a dois para dar espaço a uma relação a três, repleta de responsabilidades novas que só existem com o nascimento de uma criança.

Não é muito difícil que nos reconheçamos em alguma cena, em alguma situação. O final do filme, que seria o começo do relacionamento do casal, é, para mim, a parte mais bonita: a praiazinha no litoral italiano, Guille e Marion se conhecendo, a cumplicidade que nasce e que deveria perdurar e toda aquela vontade de acreditar que as coisas podem dar certo. Tudo que sentimos quando perdemos a razão e nos encontramos apaixonados.

Nome original: 5×2.
Ano/País:2004, França.
Diretor: François Ozon.
Duração: 90 min.
Roteiro: François Ozon e Emmanuèle Bernheim.
Premiações: Vencedor do prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza em 2005.

1 comentário

Arquivado em Cinema